Cave inaugura exposição de Telma Gadelha com obras sobre o realismo mágico da cultura popular. “Entremundos” apresenta pinturas que discutem temas como cultura popular, máscaras, realismo mágico, espiritualidade e história da arte.
No dia 12 de agosto, às 18h, inaugura a nova exposição “Entremundos”, de Telma Gadelha, na Cave. Com a curadoria de Lucas Dilacerda, a exposição apresenta um recorte de pinturas que discutem temas como cultura popular, máscaras, realismo mágico, espiritualidade e história da arte.
Telma Gadelha pinta seres que vivem entre mundos: entre o terreno e o espiritual, entre a ordem e o caos, entre o sagrado e o profano, entre o ancestral e o contemporâneo. “Entremundos” é a sua primeira exposição individual e apresenta um conjunto de pinturas que tiveram início em resposta ao encantamento causado por imersões recentes no Cariri cearense.
Os festejos populares erguem-se em suas telas como um grito. É ali, entre espadas e fitas, entre máscaras e coreografias, que o povo inventa seus próprios milagres. Rituais, como o reisado, trazem elementos indígenas e africanos em conjunto com antigos ritos agrários mediterrâneos que se transformaram e sobrevivem nas Américas. Em comunhão, vida e cultura ancestrais são afirmadas como ato de resistência frente ao rolo compressor do capitalismo. O resultado é um teatro popular em que se encena, de forma vibrante, a batalha entre o visível e o invisível.

Atravessamos uma época dominada pelas máquinas. Carros e motos dividem o espaço com altares e fazem parte dos cortejos nas tiragens de quilombos. A arte popular e os festejos do Cariri criam uma afirmação identitária que permanece viva e latente, e que justamente por isso também se transforma, entrando em simbiose com o universo dos aparatos técnicos. Essas manifestações tecem um cruzamento entre ancestral e contemporâneo, misturando tempos e criando uma sensação apocalíptica, permeada por humor e irreverência.
Santos e demônios dançam lado a lado, caracterizados por suas máscaras, subvertendo a ordem cotidiana em um ato de celebração. A máscara, elemento ritualístico presente em diversas culturas, transcende a sua função de disfarce para se tornar um canal de comunicação com os espíritos. Ao mesmo tempo que oculta, revela. Protege, mas também convoca. É um artefato de guerra espiritual e também de comunhão coletiva. Nas pinturas de Telma, as máscaras ganham contornos entre o grotesco e o sublime, como se cada rosto encarnasse uma entidade ambígua: ora protetora, ora ameaçadora.
A poética da artista costura referências da arte medieval com o repertório da arte contemporânea, inventando um universo pictórico que é, ele mesmo, um entrelugar. As suas telas evocam a teatralidade das iluminuras, os ícones de santos, a arquitetura da devoção, mas tudo isso contaminado por signos populares, humor escatológico e crítica à história da colonização. Há aqui uma espécie de carnaval litúrgico, onde Fra Angelico encontra o careta do Cariri, e onde o céu e o inferno se confundem na mesma procissão.
Nas telas de Telma, figuras solitárias aparecem em composições suspensas do tempo e do espaço. Entre a narrativa e a vertigem, os corpos sofrem a ação de forças sobrenaturais que desmancham os seus contornos humanos e que os envolvem em um universo enevoado e misterioso. Sem chão, experimentamos um sentimento de vertigem, como um corpo que cai em abismos onde a linguagem não alcança.
Leia agora com exclusividade o texto curatorial de Lucas Dilacerda acerca da mostra:
Suspensão dos signos
Telma Gadelha pinta seres que vivem entre mundos: entre o terreno e o espiritual, entre a ordem e o caos, entre o sagrado e o profano, entre o ancestral e o contemporâneo. “Entremundos” é a sua primeira exposição individual e apresenta um conjunto de pinturas que tiveram início em resposta ao encantamento causado por imersões recentes no Cariri cearense.
Os festejos populares erguem-se em suas telas como um grito. É ali, entre espadas e fitas, entre máscaras e coreografias, que o povo inventa seus próprios milagres. Rituais, como o reisado, trazem elementos indígenas e africanos em conjunto com antigos ritos agrários mediterrâneos que se transformaram e sobrevivem nas Américas. Em comunhão, vida e cultura ancestrais são afirmadas como ato de resistência frente ao rolo compressor do capitalismo. O resultado é um teatro popular em que se encena, de forma vibrante, a batalha entre o visível e o invisível.
Atravessamos uma época dominada pelas máquinas. Carros e motos dividem o espaço com altares e fazem parte dos cortejos nas tiragens de quilombos. A arte popular e os festejos do Cariri criam uma afirmação identitária que permanece viva e latente, e que justamente por isso também se transforma, entrando em simbiose com o universo dos aparatos técnicos. Essas manifestações tecem um cruzamento entre ancestral e contemporâneo, misturando tempos e criando uma sensação apocalíptica, permeada por humor e irreverência.
Santos e demônios dançam lado a lado, caracterizados por suas máscaras, subvertendo a ordem cotidiana em um ato de celebração. A máscara, elemento ritualístico presente em diversas culturas, transcende a sua função de disfarce para se tornar um canal de comunicação com os espíritos. Ao mesmo tempo que oculta, revela. Protege, mas também convoca. É um artefato de guerra espiritual e também de comunhão coletiva. Nas pinturas de Telma, as máscaras ganham contornos entre o grotesco e o sublime, como se cada rosto encarnasse uma entidade ambígua: ora protetora, ora ameaçadora.
A poética da artista costura referências da arte medieval com o repertório da arte contemporânea, inventando um universo pictórico que é, ele mesmo, um entrelugar. As suas telas evocam a teatralidade das iluminuras, os ícones de santos, a arquitetura da devoção, mas tudo isso contaminado por signos populares, humor escatológico e crítica à história da colonização. Há aqui uma espécie de carnaval litúrgico, onde Fra Angelico encontra o careta do Cariri, e onde o céu e o inferno se confundem na mesma procissão.
Nas telas de Telma, figuras solitárias aparecem em composições suspensas do tempo e do espaço. Entre a narrativa e a vertigem, os corpos sofrem a ação de forças sobrenaturais que desmancham os seus contornos humanos e que os envolvem em um universo enevoado e misterioso. Sem chão, experimentamos um sentimento de vertigem, como um corpo que cai em abismos onde a linguagem não alcança.
Artista visual, Telma Gadelha nasceu na Bahia, cresceu no Ceará, vive e trabalha no Rio de Janeiro, tendo a pintura como meio. Tem formação na Escola de Artes Visuais do Parque Laje (RJ), Escola Massana (Barcelona), Ateliê Charles Watson (RJ), Ateliê Fred Carvalho (RJ), Escola Sem Sítio (RJ), Grupo Efraim Almeida (RJ), dentre outros. Desde 2022, uma imersão no Cariri cearense, convivendo com os ritos, manifestações e mestres da cultura popular deu corpo a uma série de pinturas em resposta ao encantamento e alteração da percepção diante desse grande celeiro cultural. O seguimento da pesquisa transbordou em trabalhos que observam festejos populares como forma de resistência, onde convivem o caos e a ordem, o sagrado e o profano, a tradição e o contemporâneo. Participou de várias exposições coletivas, dentre elas: Bienal das Artes, SESC DF, 2018; Doze métodos para se chegar a lugar algum, Paço Imperial, RJ, 2019; Em Alguma Parte Alguma, Galeria Eixo, Niterói, 2021; 17o Salão Nacional de Arte Contemporânea de Guarulhos, SP, 2021; Primavera Tua, Espaç̧o Travessia, RJ, 2022; Guerreiros, Cães e Reis, Galeria de Arte da UFF, Niterói, 2023; O que te faz olhar para o Céu? Centro Cultural dos Correios, RJ, 2024; Delírio Ardente, Cave Galeria, Fortaleza, 2024; Salão dos Artistas Sem Galeria, Zipper Galeria, SP, 2025.
Lucas Dilacerda é Curador e Crítico de Arte. É sócio da AICA – The International Association of Art Critics; e também da ABRE – Associação Brasileira de Estética, da ABCA – Associação Brasileira de Críticos de Arte e da ANPAP – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (Comitê de Curadoria). Ganhou o prêmio ABCA 2023 pelo destaque regional no Nordeste com a curadoria da Bienal Internacional do Sertão. Comite de Indicação do Prêmio PIPA (2025). Realizou mais de 50 curadorias de exposições coletivas e individuais, 70 cursos e 200 apresentações em diversas instituições de arte no Brasil, tais como Museu de Arte Contemporânea – Dragão do Mar; Pinacoteca do Ceará; Museu da Imagem e do Som; Centro Cultural Banco do Nordeste, no Cariri; Arte Plural, de Recife; Museu de Arte Moderna da Bahia; Instituto Goethe; Parque Laje, do Rio de Janeiro; SESC, de São Paulo; e diversas outras galerias, tais como Galeria Leonardo Leal; Cave Galeria; Galeria Tato; OMA Galeria entre outras. Possui mais de 50 textos, críticas de arte e artigos publicados. É professor de “Estética” e “História da Arte” de Cursos Técnicos do Dragão do Mar e da Pós-Graduação em Arteterapia e Arte-Educação da UNIFOR. Doutorado e Mestrado em Artes, pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Especialização em Arte: Crítica e Curadoria, pela PUC de SP; Especialização em História da Arte, pela Universidade de Uberaba de Minas Gerais; MBA em Curadoria, Museologia e Gestão de Exposições, pela Estácio; e Graduado em Artes Visuais, pela Universidade Estadual do Ceará; também é Graduado (Licenciatura e Bacharelado) em Filosofia, com ênfase em Estética e Filosofia da Arte, com distinção Summa Cum Laude, pela UFC; Especialista em Arte e Filosofia Clínica, pelo Instituto Packter; e Mestre em Filosofia, com ênfase em Estética e Filosofia da Arte, pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFC.
A Cave é uma galeria de arte brasileira, localizada em Fortaleza (Ceará) e interessada na produção artística do Nordeste do Brasil, a partir da ótica do território, da cultura, da decolonialidade e das poéticas contemporâneas. Nos últimos anos, a galeria vem desenvolvendo ações em contexto local, nacional e internacional. Entre as suas principais ações, está o desenvolvimento de um olhar sobre a produção dos artistas do Ceará, bem como o estímulo à sua valorização e posicionamento no mercado de arte. Com um perfil arrojado, a Cave busca agregar artistas que apresentam propostas que dialoguem de forma local e global, visando uma expansão da produção artística brasileira e do papel do Nordeste nesse sentido.
Serviço: Entremundos, uma exposição de Telma Gadelha. Abertura: Terça, 12 de agosto de 2025, 18h às 21h. Endereço: Rua Pereira Valente, 757 – Casa 03 – CEP: 60160-250 (Travessa Ana Benevides) entre as Ruas Leonardo Mota e Vicente Leite. Período em cartaz: 12 de agosto de 2025 a 20 de setembro de 2025. Horário de funcionamento: Terça à sexta, das 13h às 19h e sábado, das 10h às 14h.